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Wilson nunca se sentia bem quando passava naquele trecho da estrada. Não que tivesse medo, ou algo assim, mas é que coisas estranhas sempre lhe ocorriam ali. Por vezes, tocava na rádio a música que ele mais gostava, outras, surgiam-lhe lembranças profundamente tristes, isso quando não sentia uma forte vontade de rir, ou de chorar. Eram sensações extremamente emotivas e que coincidentemente, apareciam sempre que estava naquele exato trecho da estrada.
Numa tarde nublada, foi obrigado a dirigir por ali. Fez uma curva. Depois, outra. E repentinamente, um grande pedregulho rolou de uma encosta e atravessou seu caminho, obrigando-o a uma manobra brusca. Usou de todo seu reflexo para desviar, mas acabou batendo violentamente contra a mureta de proteção e capotou.
Ao sair do veículo e olhar para o acidente, Wilson viu seu próprio corpo dilacerado pelas ferragens e entendeu que estava morto. Foi então que algumas pessoas foram surgindo ao seu redor, seus corpos eram translúcidos, mas pareciam todas muito felizes, até que uma delas virou-se para ele bastante sorridente e disse:
− Que bom você voltar para nós! Sempre foi um bom amigo. Jamais devia ter nos deixado. Se soubesse o quanto tentamos fazer com que nos encontrasse...
* * * * *

...Ao soprar o Dente de Leão, uma belíssima semente se soltou e voou com o vento. Tornou-se logo um detalhe branco sobre o fundo azulíneo da belíssima manhã de verão. Parecia desafiar a gravidade e subia cada vez mais alto.
Com um sorriso largo e tomada por excitação, a menina correu em disparada na direção da semente. Cortava os campos de grama baixinha e rodeado de flores coloridas sem qualquer preocupação. Ela não tirava os olhos do pontinho branco. Não queria perdê-lo de vista. De tanto correr, chegou até as margens de um grande lago. Descalçou-se e entrou na água. O pontinho branco, como que colaborando com aquele mais novo obstáculo, começou a rodopiar num mesmo lugar. A menina avançava naquele imenso espelho turvo, queria chegar bem perto dele, talvez agarrá-lo novamente.
De repente, sentiu algo pontiagudo transfixar sua perna e antes mesmo que tivesse tempo para gritar de dor, desabou sobre a água e sentiu metade de seu corpo ser rapidamente engolido. A garganta travou e a visão começou a falhar. Poucos segundos e o que restava da menina ainda consciente boiou sobre o lago. Antes que tudo fosse tomado pela escuridão e seus sentidos se desligassem, uma recompensa lhe foi dada: sentir o objeto de desejo pousar sobre seu nariz.
Aquele foi o último e mais sutil dos sorrisos.
* * * * *
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− Vó! Você pode vir aqui, por favor? − Pediu a neta de seis anos com um tom de voz manhoso para a avó que estava ao telefone. Só haviam as duas no apartamento.
− Só um minuto. Estou falando com sua mãe. − Respondeu a velhota.
− Mas, vó, a senhora tem que ver uma coisa! − A menina insistiu em súplica.
− Espera, menina! Já não disse que estou falando com sua mãe?! − Ralhou.
A menina então desistiu de chamar pela avó e retornou para o quarto com cara de choro. Apertava os dedinhos uns nos outros. Parecia apreensiva.
Logo depois, um grito abafado e um barulho oco vindos do quarto chamaram a atenção da velha, que decidiu, enfim, ir até lá.
− Samanta?! − Chamou a avó sem ouvir resposta. − Samanta?!
Assim que entrou no cômodo e percebeu que estava vazio, olhou lá para baixo pela janela e avistou o corpo da menina com seus membros disformes e uma poça de sangue que começava a se formar. Ela acabara de despencar de seis andares.
Durante a perícia, foi encontrada na testa da vítima uma marca de queimadura que lembrava uma cruz invertida. Até hoje, vinte anos depois, o apartamento continua fechado e ninguém tem explicações para o que possa ter acontecido ali.
* * * * *

− ...Mas eu te amo! Eu te amo!
− Isso é impossível! − Respondeu a criatura. − Não há qualquer critério neste ou em qualquer outro mundo que compare a beleza de tua pele, o brilho dos teus olhos, esta lisura em teus cabelos, com a imagem monstruosa e selvagem que vejo refletida no espelho das águas do rio sempre que para este ouso lançar o meu olhar.
− Palavras tolas estas tuas. Não existem tais critérios de beleza no amor. Se tenho alguma certeza em meu coração, esta certeza é a de que eu te amo!
− Então, terei de matar-te. Não há outra escolha. Pois se me amas o quanto afirmas, perecerás de sofrimento e tristeza por eu não poder corresponder ao teu sentimento e jamais deixarei que tal fato suceda.
Aquela era uma noite tão gélida que o sopro do vento era como dezenas de adagas cortando a pele.
− Não deixarei jamais de amar a ti. A ti me entrego de corpo e alma. Se me matar é de tua vontade, então que assim seja.
A menina pôs-se de joelhos diante da figura monstruosa, fechou os olhos e procurou sonhar. Sonhou com um mundo diferente, onde os anseios de seu coração eram, enfim, recíprocos às vontades do universo. Sonhou eternamente.
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